segunda-feira, 31 de julho de 2017

Moonlight



O que faz que eu seja eu mesmo? Quem sou eu? Essas foram a pergunta que me fiz ao fim de Moonlight, o filme ganhador do Oscar de melhor filme de 2017. Um Oscar que ficou marcado não apenas pela gafe histórica ocorrida ao anunciarem o prêmio de melhor filme, mas também por premiar um filme que conta a história de um jovem negro, pobre e gay. Mas Moonlight é muito mais que um filme de um jovem negro, pobre e gay, é um filme sobre aceitação, descobertas e escolhas.

Baseado em uma peça inédita e semi-autobiográfica, In Moonlight Black Boys Look Blue escrita por Tarell Alvin McCraney, Moonlight conta a história de Chiron (Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevantes Rhodes) um jovem negro, filho de mãe solteira e viciada em drogas (Naoomi Harris) em três momentos: infância, adolescência e adulto. Dividido em três capítulos, cada um retratando uma fase de sua vida, o filme mostra a luta de Chiron para se encontrar, se aceitar, lidar com a falta de carinho, com suas dúvidas, lidar com o bullying, se tornar um homem.


Com uma fotografia maravilhosa que ajuda nos situar e a contar a história mostrando a situação psicológica de Chiron. Moonlight é um filme quase sem diálogo. Onde um olhar, um toque, uma imagem, vale muito mais que muitas palavras. E o roteiro ajuda muito nisso, McCarney e Barry Jenkins, que também escreveu o roteiro, incluíram fatos de sua história o que trás um ar pessoal ao filme, dá a ele uma sensibilidade, uma genuinidade, uma autenticidade difícil de se ver hoje em dia, que só é possível sentir porque os roteiristas passaram por aquilo que estamos vendo em cena. Outro ponto a se destacar é que embora o filme seja o primeiro filme a ter elenco 100% negro e a tratar de uma temática LGBT a ganhar um Oscar, o filme nunca se torna panfletário, nunca levanta uma bandeira. Simplesmente mostra as lutas de um jovem para se aceitar, para lidar com os desafios de crescer e se tornar um homem, e que por acaso ele é negro e gay. O roteiro tem a sensibilidade de trazer esses assuntos de forma sensível, e natural. Diferente de outros filmes que tratam dos mesmo assuntos.

E essa sensibilidade é claramente vista nas atuações do elenco. Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevantes Rhodes que interpretam Chiron criança, adolescente e adulto respectivamente, conseguem dar ao personagem a sensibilidade necessária para que você consiga entender o que eles estão sentido. Hibbert nos mostra uma criança confusa, assustada, sem rumo, sem carinho, sem amor, seu olhar triste, longe mostra de forma simples o quanto aquele garoto sofre. Sanders já faz um jovem que está confuso sobre quem ele é, com dificuldades de se aceitar, sofrendo bullying todos os dias, um jovem perdido, mas que não se deixa abater, se cai ele levanta, como lhe foi ensinado. E Rhodes nos entrega um Chiron, agora chamado Black, que quer se impor, nem que para isso tenha de se vestir, e usar acessórios que não revelem quem ele realmente é. Que mesmo tentando se passar por um homem forte, durão, seu olhar ainda é de alguém triste, perdido e confuso. Ele não sabe quem ele é.

Mas sem dúvida nenhuma os grandes nomes do filme são Mahershala Ali e Naomi Harris. Mahershala é Juan um traficante, mas não um traficante esteriotipado tantas vezes visto nos filmes e série, ele é alguém amável, sensível, que vê em Chiron um filho que nunca teve. A atuação de Mahershala é contida, mas emocional. Destaque para a cena em que ele revela algo para Chiron na mesa do café, apenas com um olhar conseguimos saber o que se passa na sua mente, o que ele está sentindo. O maior problema é o tempo de tela de Mahershala Ali, ele fica muito pouco tempo, e atuação dele é tão marcante, tão hipnotizante que a vontade é que ele ficasse o tempo todo e tela. Já Naomi Harris simplesmente se despe de toda a sua vaidade para fazer uma mulher que se prostitui para pagar seu vício. Completamente o oposto do personagem de Mahershala, Naomi faz uma mulher emocional, desequilibrada, uma verdadeira bomba relógio.Suas cenas são desesperadoras, revoltantes e tristes. O estrago que as drogas fazem na vida dela fica evidente, novamente no olhar, no toque, mas aqui principalmente na sua forma de falar.


Moonlight  é um verdadeiro estudo de personagem. Que mostra como somos formados e o quão difícil é se encontrar e crescer, principalmente quando não temos estabilidade emocional em casa. Isso fica claro em Chiron, ao início do filme ele é inseguro e se sente perdido, mas encontra em Juan um modelo um exemplo de caráter, de pai e de homem. Essa influência fica clara no segundo capítulo do filme quando vemos que embora Chiron ainda seja inseguro, algo comum para um adolescente, ainda mais em sua situação, agora ele tem orgulho próprio, não abaixa a cabeça, ele cai mas se levanta, mesmo que isso possa causar dor, ele se tornou alguém que sabe se defender, assim como Juan, mas que ainda está suscetível a influência ainda, tem medo. O que fica claro no terceiro capitulo do filme quando vemos um novo Chiron, diferente de tudo que havíamos visto até aquele momento, muito devido as influências do meio onde viveu. Mas o mais triste é ver que ele não é aquilo que se tornou, suas roupas, seu carro, seus acessórios, tudo é apenas um disfarce para o homem inseguro e confuso, que  ainda não sabe quem ele é. Que tem medo, mesmo com a posição que alcançou.

Com metáforas visuais, como o mar que simboliza a felicidade de Chiron, cores que nos ajudam a entender qual a verdadeira situação do que estamos vendo. Uma montagem precisa que se utiliza de muitos planos fechados, com poucos planos abertos, tornando o filme mais intimista, mais pessoal, e cenas com a câmera em 360º que faz com que nos sintamos dentro da projeção do filme, Barry Jenkins faz um trabalho sensacional, conseguindo tirar o melhor de todos envolvidos. Com apenas imagens ele nos conta uma história real, que poderia ser de qualquer um de nós, de nosso vizinho, nosso parente, nosso filho. E o que faz o trabalho de Jenkins ser tão genial, é que enquanto muitos cineastas tem a necessidade de explicar cada detalhe da história em diálogos expositivos, Jenkins nos conta uma história com imagens, olhares, toques, cores, que nos dizem muito mais do que mil palavras, se fossem tiradas todas as falas do filme, ele ainda faria todo sentido.

Moonlight é um filme importante, que trata de assuntos importantes, de assuntos delicados, assuntos polêmicos, sem nunca ser panfletário. Embora talvez se eu fosse negro, ou gay, ou tivesse pais ausentes e drogados, ou tudo isso, eu saberia melhor o que Chiron sente. Mas, mesmo assim consegui sentir seu sofrimento, suas dúvidas, seus medos, sua confusão, sua frustração. E ao final do filme me peguei pensando: "Quem sou eu? O que faz que eu seja eu mesmo?" Essa é a função do cinema, além de te fazer divertir, é te fazer refletir e se tornar uma pessoa melhor. E depois de Moonlight posso dizer, me tornei uma pessoa melhor. Mas ainda a pergunta continua: Quem sou eu? Quem é Você? Quem somos nós?




sábado, 15 de julho de 2017

O Silêncio do Céu


Até onde você chegaria se alguém que você ama, sua mãe, sua irmã, sua esposa, fosse estuprada? Ou melhor até onde você iria se visse esse ato de violência e não pudesse fazer nada? Essa é a pergunta que o filme de Marco Dutra O Silêncio do Céu tenta responder.

Com roteiro baseado no livro "Era el Cielo" de Sergio Bizio, o filme conta a história de Diana (Carolina Diekman) que sofre um estupro dentro de sua casa por dois indivíduos, enquanto seu marido Mario (Leonardo Sbaraglia) vê aquele crime sem conseguir fazer nada. A partir daí vemos como aquele crime afeta Diana, que não conta para seu marido o que houve, e Mario que não conta para Diana que viu o ocorrido.

Com um tema delicado e necessário, O Silêncio do Céu é um estudo de personagens e da própria vida, e das consequências de ficar em silêncio quando um crime desse acontece. Com narrações em off o filme nos dá uma ideia do que se passa na cabeça de uma vítima que não consegue falar, e também de seus entes queridos que sabem o que houve mas não sabem como tocar no assunto. Nesse ponto o filme lembra obras de Terrence Malick, onde temos personagens melancólicos em busca de um caminho, em busca de paz interior, e conhecemos seus medos suas dúvidas através de seus pensamentos ouvidos em off.


Além de Malick, o filme também lembra filmes de Michael Haneke pela abordagem nua e crua de um tema pesado, sem floreios, sem maquiagem. O filme é duro, cruel e real ao retratar o estupro e suas consequências. A cena inicial inclusive, que é a cena do estupro, é das mais incômodas e difíceis de se assistir que já vi. Embora não mostre praticamente nada do crime sendo cometido, as cenas mostradas e o som são incômodas. É impossível assistir a essa cena, que é mostrada duas vezes uma da visão de Diana e outra na de Mario, e ficar impassível.

Além de Malick e Haneke, é possível ver também a influência de Alfred Hitchcock. A forma que Marco Dutra constrói a tensão psicológica e densa é feita na medida certa principalmente com o uso silêncio, tantas vezes usada por Hitchcock, apenas com um olhar ele passar a tensão e os sentimentos dos personagens. Além do silêncio, o uso dos sons diegéticos lembra muito Hitchcock, sons que te fazem sentir que está na cena que faz parte daquela história. Marco Dutra consegue construir um clima de tensão sem ser exagerado. Na medida necessária para causar incômodo e te fazer pensar.

Embora com referências a Malick, Haneke e Hitchcok, Marco Dutra impõe o seu estilo, suas escolhas em como guiar a história são inteligentes, e enquanto pensamos que a história vai para um lado, ela vai para outro. Causando um impacto ainda maior no espectador. A forma como o filme foi montado e conduzido é um dos maiores êxitos do filme, que evita o clichê comum em filmes americanos.


Outro acerto do filme é a fotografia. O filme tem uma fotografia sóbria que se utiliza muito da escuridão para poder dar o tom a história e para situação psicológica dos personagens. Existem rimas visuais que nos fazem entender qual a daquele personagem, como eles se sentem. Em um das cenas mais belas do filme, por exemplo, vemos Diana na luz de um lado e Mario do outro lado na escuridão, mostrando como Mario a cada dia adentra cada vez mais na escuridão de seus atos, de seus pensamentos, de sua confusão, de seus medos. Enquanto Diana começa a engatinhar para se recuperar, mesmo que amparada por remédios.

Mas talvez o maior acerto do filme seja o elenco. Carolina Dieckman dá a Diana a medida certa de melancolia, tristeza, raiva, confusão, medo. Pelo olhar sabemos o que ela está sentindo. Principalmente na cena do estupro, o olhar dela mostra luta, medo, desespero, humilhação, tudo de uma forma que nunca se torna caricato ou irreal. Já Leonardo Sbaglia constrói um homem com medo, confuso, e cuja culpa a cada passo que dá aumenta e consome cada vez mais, a forma de falar, o olhar, ele simplesmente nos entrega um homem, um ser humano confuso, com medo e que não sabe o que fazer. O elenco coadjuvante também é ótimo. Chino Darín que faz Nestor conseguiu construir um personagem confuso, paranóico, que só pelo olhar você consegue notar que ele tem algum trauma, algum problema mau resolvido. Mirella Pascual que faz Malena, a mãe de Nestor, construiu uma personagem que te faz sentir compaixão por ela, que faz você temer por ela, mas ao mesmo tempo causa desconfiança, faz com que você imagine que ela sabe mais do que realmente parece, que está escondendo algo ou protegendo alguém.

Talvez a única coisa que tenha me incomodado um pouco no filme é o fato de ter focado muito nas consequências sobre Mario e até onde ele vai depois do crime cometido contra sua esposa, e em como isso o afeta. Gostaria de ter visto mais de Diana, da luta dela para lidar com o trauma, talvez explorar um pouco mais seu medo, sua confusão, ver um pouco mais como o crime cometido contra ela a afetou. Confesso que a princípio até queria que fosse explorado pelo roteiro o motivo do silêncio dela, mas após refletir e conversar com amigas sobre o filme, percebi que, princialmente após a revelação no 3º ato do filme, o silêncio está implícito, vergonha, medo, insegurança, tudo isso leva Diana e se calar.


O Silêncio do Céu é sem dúvida nenhuma um filme pesado, denso e acima de tudo necessário, principalmente em um país onde a cultura do estupro culpa a mulher por ser estuprada, e onde a Lei Maria da Penha funciona só no papel. Onde a violência contra mulher é algo por vezes normal. Marco Dutra conta uma história que poderia ser de qualquer um, do seu vizinho, do seu colega de trabalho, do seu amigo, ou até mesmo sua. O filme abre uma discussão que deveria ser mais vezes abordada. O que leva uma mulher a se calar? Até que ponto chegaríamos se sofrêssemos com esse crime? Até quando uma mulher aguenta sofrer sozinha? Até onde uma mulher chegaria ao ser estuprada? Até que ponto sua vida seria afetada? Esse é o papel do cinema criar discussões que nos ajudam a lhe dar com situações como essa, que nos fazem pensar. O Silêncio do Céu faz isso levanta a questão. Só de trazer essa questão a tona já valeria a pena assistir ao filme. Junte isso a um roteiro bem amarrado, atuações de peso, parte técnica impecável e temos um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.

Atenção: Se você foi ou conhece alguém que foi estuprada ou sofreu qualquer tipo de abuso seja físico, moral ou psicológico. Não fique em silêncio. DENUNCIE. Procure ajuda. Não sofra sozinha(o). Existem pessoas preparadas e qualificadas para te ajudar. DENUNCIE. Procure ajuda, por mais difícil que seja, por mais humilhante que seja, ninguém merece levar esse fardo, esse peso sozinho. DENUNCIE. Procure ajuda! Não sofra sozinho!

Ligue 180 ou vá até uma Delegacia da Mulher mais próxima. Não fique em Silêncio. Deixe sua voz ser ouvida!

E o principal, lembre-se: VOCÊ NÃO TEM CULPA DE NADA!




Gravidade: Perfeição Técnica Que Não Emociona


Gravidade é com certeza um dos filmes mais badalados de 2013. Conquistou boa parte do público e da crítica. O filme de Alfonso Cuaron, mesmo antes de sua estreia, aparecia como favorito a conseguir um grande número de indicações ao Oscar e outras premiações de cinema, o que realmente aconteceu. Mas acho que muitos exageraram e encheram demais a bola do filme.

No filme Sandra Bullock interpreta a Dra. Ryan Stone, uma brilhante engenheira médica em sua primeira missão espacial, ao lado do veterano Matt Kowalsky (George Clooney) no comando de seu último voo antes da aposentadoria. Em uma operação de rotina fora da nave, um desastre acontece. A nave é destruída, deixando Stone e Kowalsky à deriva no espaço, ligados um ao outro apenas por um cabo e sem qualquer contato com a Terra - e qualquer chance de resgate. O único meio de voltar pra casa talvez seja se jogar de vez na aterrorizante vastidão do espaço.

O filme é perfeito tecnicamente. Os efeitos especiais são fantásticos. Mas o que realmente chama a atenção, a exemplo de 2001: Uma Odiséia no Espaço, é o uso do som. Diferente das ficções científicas em que ouvimos as explosões e mais explosões, aqui temos apenas o silêncio do espaço. Em um dos momentos estamos dentro da nave com Sandra Bullock, e destroços vão acertar a nave, e enquanto dentro da nave temos o som normal, somos jogados pra fora da nave e não ouvimos nada. A mixagem de som e edição de som são fantásticos, ao invés de explosões ouvimos a voz, respiração dos personagens e a excelente trilha sonora de Steven Price em momentos chaves do filme.
A edição do filme, com vários planos sequências, é realmente magnífica. Mas o famoso plano inicial prejudica o filme. São treze minutos de plano sequência, e isso nos tira do filme, porque quando esse plano acaba e temos um corte ficamos imaginando quando veremos outro plano sequência como esse. Com isso você sai completamente do filme. Mas Alfonso Cuaron foi tão competente e fez um trabalho tão bom na direção, que você consegue voltar ao filme rapidamente. Não é à toa que Cuaron ganhou o DGA, prêmio do Sindicato dos Diretores de Hollywood, e se tornou o primeiro diretor mexicano e/ou origem latina a ganhar um Oscar de melhor diretor.


Mas um filme não é só técnica, tem muito mais que isso, e é aí que Gravidade perde e muito. Embora Sandra Bullock esteja bem, sua atuação não tem a força necessária que a personagem precisa. Tanto que em um momento em que há uma virada na história, soa artificial, e difícil de acreditar que aquela personagem que a poucos minutos era tão frágil e fraca consegue fazer o que ela fez. Já George Clooney faz simplesmente ele mesmo, e a tranquilidade dele no filme chega a ser incômoda.

Mas nada me incomodou mais que o roteiro do filme, que embora seja simples, existem alguns furos que incomodam. Mas dois momentos em especial me tiraram totalmente da projeção. O primeiro deles tem a ver com a falta de oxigênio da Dra. Ryan (Bullock). E o outro é o momento é quando a personagem descobre como fazer algo que pode salvar sua vida. Não entrarei em detalhes para não estragar a experiência de quem assistiu. Mas abaixo irei descrever as cenas que falei.

Mas posso dizer que, Alfonso Cuaron, fez um trabalho tão magnífico que por mais que você saia do filme, você consegue voltar. Mas mesmo sendo um filme espetacular tecnicamente merecia um desfecho mais bem feito e bem bolado. Os últimos 30 minutos do filme te tiraram totalmente da trama e faz o filme cair na qualidade.

A conclusão que cheguei a fim do filme é que Cuaron ficou tão preocupado com a parte técnica, o som, a fotografia, os efeitos especiais, a montagem e seus planos sequências, que são sem dúvida fantásticos, que esqueceu que um filme é muito mais que isso. Parece que ele se esqueceu de ter um pouco mais de carinho e de atenção ao roteiro. Sem dúvida o filme é um espetáculo visual, mas cinema não é só isso. O filme é tecnicamente perfeito, mas falta emoção, emoção essa que procuramos quando nos sentamos para assistir a um filme no cinema. Se não fosse a parte técnica perfeita do filme e a direção competente e segura de Alfonso Cuaron Gravidade, seria um filme que passaria despercebido e como muitas outras ficções seria esquecido com o passar do anos.


***SPOILER*** (Selecione o texto abaixo para poder ler)

Sobre as duas cenas que citei que te tira totalmente do filme são as seguintes:

A primeira diz respeito a cena em que o oxigênio da Dr. Ryan está no fim. Ela está com oxigênio apenas do traje  e o do cilindro acabou. A personagem faz coisas que seriam necessárias muito mais oxigênio do que ela diz ter. Ela pula de um barra a outra até chegar a porta da nave e entrar nela, e oxigênio não acaba. Um baita furo.

O outro momento que o filme peca terrivelmente e te tira totalmente do filme, é quando o personagem de Matt entra na nave e lembra a Dr. Ryan como ela conseguirá fazer a nave andar. Para logo em seguida você descobrir que a Dr. Ryan estava dormindo e tudo não passou de um sonho. Sério mesmo depois disso não voltei mais para dentro do filme.


Across the Universe: O retrato de uma geração


Across the Universe é o retrato de uma geração ao som dos The Beatles. Essa é a melhor definição para o filme. Com músicas dos Beatles o filme conta a trajetória de um grupo de jovens nas décadas de 60 e 70 nos EUA. Com erros e acertos a diretora Julie Taymor nos narra uma história que de maneira lúdica retrata a vida dos jovens daquela época.

Cheio de referências as obras dos Beatles, com personagens chamados Jude (da canção Hey Jude), Lucy (da canção Lucy in the Sky with Diamonds) e Prudence (da canção Dear Prudence), e de ícones da época como Janis Joplin e Jimi Hendrix, o filme narra a história de Jude (Jim Sturgess), um jovem de Liverpool, que vai para os EUA em busca do pai que abandonou a mãe quando ela ainda estava grávida. Lá ele conhece Max (Joe anderson) de quem se torna o melhor amigo e parceiro. Depois de um jantar complicado na casa de Max, eles vão para Nova York e passam a morar com Sadie (Dana Fuchs) uma jovem cantora, referência clara a Jannis Joplin, que abriga novos artistas, entre eles o guitarrista Jojo (Martin Luther McCoy), uma referência clara a Jimi Hendrix, e Prudence (T. V. Carpio), uma garota perdida que depois de se apaixonar por uma colega de escola vai para Nova York em busca de um novo rumo na vida. Logo se junta a eles Lucy (Evan Rachel Woods), irmã de Max que acabou de perder o namorado na Guerra do Vietnã, e por quem Jude já era apaixonado antes, e não demora muito para que os dois engatem um romance. Tendo o romance de Jude e Lucy como viés principal da narrativa, o filme conta a história desses jovens em meio aos movimentos civis americanos, mostrando seus medos, lutas, dificuldades, erros e acertos.

O filme tem seus erros e acertos. Um dos acertos principais é o uso de um elenco de praticamente desconhecidos, com exceção de Evan Rachel Wood, que nem tão conhecida do grande público ela é, o elenco é composto de jovens atores em começo de carreira. Dessa forma fica mais fácil você acreditar nos personagens e nos seus ideais e nos seus problemas, e quando cantam não pensamos que estamos vendo o ator tal cantando a tal música conhecida, como ocorre em Mamma Mia! por exemplo, acreditamos que realmente é aquilo que estão sentindo naquele momento que a música reflete mesmo seu estado de espírito. Como por exemplo quando ouvimos Let it be realmente sentimos a dor de quem a canta, ou quando ouvimos a canção If I feel dá pra sentir os medos e incertezas de Lucy com respeito Jude, na verdade a música caiu como uma luva para aquele momento. E mesmo quando ouvimos canções como Dear Prudence e Hey Jude, que estão ali unica e exclusivamente para justificar o nome dos personagens, elas funcionam, se fosse um elenco conhecido talvez não funcionasse.


Outro acerto foi fazer novas roupagens das músicas. Let it Be se tornou um soul, Come Together se tornou um blues, Hold Me Tight se tornou um rock meio progressivo na inglaterra e um rock estilo anos 50 nas cenas nos Estados Unidos, I've Just a Face ficou com uma levada country pop, entre outras. Isso facilita para que não pensemos nas músicas apenas como uma música de sucesso dos Beatlles mas como parte da história e do roteiro. Mas se as novas roupagens são um acerto, o diretor e os roteiristas erraram no excesso de músicas utilizadas. Existem momentos do filmes que vemos duas, três músicas serem executadas em seguida quase sem nexo uma com a outra. Esse excesso incomoda um pouco e torna o filme um tanto cansativo em certos momentos, quando por exemplo é retratado a fase psicodélica dos Beatles.

O excesso inclusive nesse ponto do filme é incômodo, o excesso de cores para destacar esse período dos Beatles, e também o uso de drogas em excesso e os excessos dos jovens naquele período é excessivo demais, e é cansativo e cansa a visão e os ouvidos também. Eu tiraria com certeza a sequência de Being for the Benefit of Mr. Kite que leva o nada ao lugar nenhum para incluir a versão de And I Love Her que foi deletada, e você pode conferir nos extras do DVD. Excessos esses que impediram de se aprofundar em outros personagens interessantes como é o caso de Prudence, parece que a personagem simplesmente tá ali pra poder colocar a música no filme, não sabemos nada dela, nem de seu passado, nem o que ela fez quando esteve sumida, e como ela resolveu os seus problemas, suas indecisões.

Algo também que incomoda no filme é a mixagem do som. Como se sabe um musical precisa ter a mixagem muito bem feita, pra juntar músicas, diálogos e sons diegéticos do ambiente. Mas no caso aqui o mixador não fez um trabalho 100%, em dados momentos fica difícil acompanhar a música e os diálogos, e diferenciá-los. Se a mixagem não foi 100%, a fotografia é incrível. A forma como ela foi usada é magnífica. Foi usado na Inglaterra uma fotografia fria, opaca, que demonstra bem a situação pessimista dos ingleses do pós-guerra, que só querem saber de trabalhar, ganhar seu dinheiro, ir ao bar, casar e ter filhos. Quando somos levados aos EUA a fotografia é composta de cores quentes e muito colorido que destaca bem o american dream life.


Ainda falando desse ponto, algo que alguns reclamam do filme, e que sinceramente eu também no começo pensei assim, é o fato de o filme não ter apenas números musicais pé no chão ou números musicais estilizados. O fato é que o filme começa com musicais pé no chão, que vai se estilizando chegando ao auge da estilização no momento Being for the Benefit of Mr. Kite e depois vai se desistilizando e chegando a um último número bem pé no chão que remete ao show que os Beatles fizeram no terraço da Gravadora Apple em Londres, quando a polícia impediu eles de tocar, o mesmo acontece aqui. Isso me incomodou quando a estilização começou a aparecer. Pensei comigo: "porque não fizeram apenas um tipo de números musicais". Conforme o filme foi passando entendi o motivo disso. Ao fazer isso a diretora quis fazer um retrato da situação dos jovens na época e também do estado de espírito, psicológico e emocional dos personagens. Afinal de contas Across The Universe é um retrato de uma geração. E a diretora faz esse retrato através dos números musicais, quando o filme começa os jovens estão levando uma vida dentro da normalidade, estão bem psicologicamente e emocionalmente normais, resultado números pés no chão o que mais se aproxima de uma estilização é I've Just Seen A Face que retrata bem o momentos de alegria de Jude. Mas conforme vai passando o tempo e a guerra chega ao seu auge, eles começam a se engajar em lutas civis, a loucura vai tomando conta deles, o uso de drogas indiscriminadamente junto com os problemas sociais e civis nos EUA na época os deixam "loucos", e psicologicamente perturbados e isso é retratado pelos números musicais, que chega ao auge da loucura na estilização do número musical de Being for the Benefit of Mr. Kite, ali eles estão no auge da alegria, mas regada a muitas drogas e loucura. Após esse momento de loucura vemos todos eles depois deitados no chão, no capim delirando, que é sucedido pelo número de Because, também estilizado mas menos louco mais clean, é como se as coisas estivessem loucas, mas a euforia das drogas vai se dissipando e eles tem de voltar a realidade, evidenciando pelo momento em que Max põe a cabeça pra fora da água. Depois os números vão se intercalando em estilizados e pé no chão. Que vai intercalando os momentos de agitação e tranquilidade, de problemas e soluções, de alegria e tristeza. E conforme vai passando o tempo e as coisas vão se acalmando os movimentos civis passam a entrar no período de Paz e Amor, outros caem no pessimismo do momento e a vida vai voltando a normalidade os números se tornam mais pé nos chão, mais reais e até melancólicos, chegando ao número final que é a apresentação de uma banda no alto de um prédio. Esse talvez pra mim foi o maior acerto do filme, a montagem dos números musicais que começa realista vai para a loucura daquelas décadas, e vai voltando a normalidade depois do auge das loucuras, a forma como demonstra o estado de espírito dos personagens, talvez seja seu maior acerto.

Com erros e acertos Julie Taymor nos entrega um musical divertido e interessante, que me deixou uma sensação de satisfação ao fim do filme. Certa vez Heitor Valadão no Podcast "Os Novos Musicais" do site Cinema em Cena disse, 'você avalia a qualidade de um musical se depois do filme você sai cantarolando algumas das músicas que foi apresentadas e se algum número musical ficou em sua cabeça'. Bem ao final do filme não consegui parar de cantar as músicas dos Bettles, e até o momento as músicas deles estão ainda na minha cabeça, e tem pelos menos três números que ainda estão na minha mente. Então com os erros e acertos Acrosss The Universe cumpre seu papel de divertir e prestar um tributo aos Beatlles, retratar suas fases, fazer uma homenagem a ícones da década de 60 e 70 e fazer um retrato de uma geração como aquela, sonhadora, louca, que só queria uma coisa mostrar pra todos que o que todos precisam é de amor!


Obs: Não posso ver um filme com música dos Beatles, escrever um texto sobre esse filme e não deixar de lembrar e citar meu amigo Tullio Dias, do site Cinema de Buteco. E Tullio concordo contigo, algumas músicas dos Beatles são bem melhores em outras versões e nas vozes de outros.

domingo, 27 de novembro de 2016

A Odisséia de “Aquarius”




No dia 17 de maio de 2016, no Red Carpet no Festival de Cannes, Kleber Mendonça Filho, Sônia Braga e todo o elenco do filme “Aquarius” fez um protesto que tomou proporções que talvez ninguém esperaria. O elenco e equipe do filme, encabeçados por Kleber e Sônia, levantaram cartazes em que denunciavam a atual situação política no Brasil. Para o elenco e equipe envolvida no filme, o processo de Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff era um golpe de estado. Os artistas entenderam, e muito bem, que a visibilidade do Festival de Cannes, poderia fazer o mundo olhar para o Brasil, e ver a situação lastimável que se encontrava, e ainda encontra a política Brasileira.

Esse ato totalmente lícito, válido e de importância primordial para a liberdade de escolha e para a democracia, foi visto por muitos como exagero, alguns criticaram, outros aplaudiram a atitude de Kleber, Sônia e todos os envolvidos no filme. Esse protesto foi apenas o começo de uma odisseia na qual “Aquarius” entrou, e a cada premiação, festival e indicação que o filme ganha, um novo capítulo é escrito. Dessa forma o filme se tornou um símbolo da polaridade política existente atualmente no país. Se você o ama é petralha e se o odeia é coxinha.


“Aquarius”: O Filme

Clara (Sonia Braga) tem 65 anos, é jornalista aposentada, viúva e mãe de três adultos. Ela mora em um apartamento localizado na Av. Boa Viagem, no Recife, onde criou seus filhos e viveu boa parte de sua vida. Interessada em construir um novo prédio no espaço, os responsáveis por uma construtora conseguiram adquirir quase todos os apartamentos do prédio, menos o dela. Por mais que tenha deixado bem claro que não pretende vendê-lo, Clara sofre todo tipo de assédio e ameaça para que mude de ideia.
 
Aparentemente simples, “Aquarius” é um dos mais importantes, complexos e profundo filme brasileiro dos últimos anos. O filme trata de lembranças, lutas, ideais, opressão e conquistas. Escrito por Kleber Mendonça, o roteiro de “Aquarius” é uma verdadeira odisseia, que te faz parar, pensar e refletir para o caminho em que estamos indo. O roteiro nos faz questionar se vale a pena certas atitudes, se vale a pena lutar, e até que ponto estamos dispostos a nos rebaixar ao nível de nossos opositores, para defender nossos ideais. Kleber de maneira simples, levanta esses questionamentos que incomodam e nos fazem sair da projeção do filme com uma outra visão do filme.



Com cenas memoráveis, edição cuidadosa e cinematografia perfeita, Kleber faz de “Aquarius” um filme inesquecível. Assim como em “O Som ao Redor”, em que o som era importante na composição da história, em “Aquarius” não é diferente o som faz parte da história, mas de forma diferente. Enquanto em “O Som ao Redor” Kleber faz o uso dos sons diegéticos para contar a história, aqui música conta a história. As músicas ouvidas por Clara em todo o filme mostram exatamente o que ela está sentindo, ou o que ela quer dizer. Além do som, as imagens são fundamentais para a construção da história. Nesse ponto, Kleber se mostra um diretor ainda mais maduro, que só faz uso do que realmente importa, nada está ali por acaso, tudo tem um motivo.

Mas com certeza o que torna “Aquarius” inesquecível é Sônia Braga. A atriz que andava em baixa, tem um retorno retumbante as telonas, com o seu melhor personagem. Com Clara, Sônia deixará de ser a eterna Gabriela ou a Dona Flor, e entra para o Hall das atuações mais memoráveis da história do cinema. Sônia apenas com o olhar consegue dizer tudo. Um gesto, um sorriso, um olhar, diz muito mais aqui do que palavras. Sônia criou uma personagem batalhadora, determinada, que acredita nos seus ideais, e que mesmo que pareça que estar errada, você fica do lado dela, porque ela é cativante, mas acima de tudo ela é humana. Clara é ao lado de Val de “Que Horas Ela Volta?”, a personagem mais importante dos últimos anos no cinema nacional. Batalhadoras e determinadas, elas traçam um perfil da mulher brasileira, que luta para conseguir o que acredita, e luta para o bem de sua família, mesmo que isso envolva sofrer. E Sônia consegue com maestria fazer de Clara não uma velha de 65 anos, mas uma mulher forte e determinada que vai à luta e em busca do que acredita.


“Aquarius”: As Possibilidades

Todo aquele que assistir “Aquarius”, e todos devem assistir, verá a sua frente, duas possiblidades. Uma explícita e menos política, e uma outra implícita e extremamente política. Essa visão vai depender muito de quem você é, de qual a sua formação.

A primeira visão explicita, é a de uma construtora que quer a todo custo “revitalizar” uma grande cidade, com prédios modernos e luxuosos. Essas construtoras, sem pensar no patrimônio cultural e histórico das cidades envolvidas, destroem casarões, prédios, praças, matas, espaços públicos e históricos, única e exclusivamente para ganhar mais dinheiro. E isso é ilustrado pelo filme. Logo no início vemos fotos de Recife, da orla, de como a cidade era no século passado. Quando vamos para a atualidade, somos jogados numa cidade moderna, em que os prédios históricos são substituídos por prédios modernos e luxuosos. Só permanece ali Clara e Aquarius. Eles são o símbolo da resistência contra aqueles que lutam contra o patrimônio histórico de uma cidade.

E diferente do que muitos pensam, essas pessoas, não são avessas a modernidade, mas são a favor de se manter o patrimônio histórico intacto. São lembranças, histórias e tradições que vão prédio abaixo quando um desses é implodido. Nesse ponto, “Aquarius” se torna universal, ao mostrar até que ponto as grandes corporações são capazes de ir para conseguir seus objetivos, e o quanto estão preocupadas com o patrimônio histórico e cultural do seu povo. “Aquarius”  dessa forma, é um filme universal, que fala com todos os povos, em especial aqueles que lutam para a permanência de uma cultura que aos poucos vai deixando de existir.


A segunda visão de “Aquarius” é implícita e extremamente política. A trajetória de Clara faz um paralelo com o da ex-Presidente Dilma. Um paralelo com tudo que ela passou até chegar ao processo de Impeachment. Clara é a personificação de Dilma e sua luta para não perder o que por de direito é dela. Assim como Dilma, Clara se recuperou de um câncer. Não apenas se recuperou, mas se tornou mais forte. Ambas “herdaram” algo de um mentor, alguém que foi importante em suas vidas, e que lhes fizeram ser quem são. No caso de Dilma, temos Lula e a presidência da república, e no caso de Clara, tia Lúcia e o apartamento no edifício Aquarius. E é a “herança” de seus mentores, que seus opositores querem tirar a todo custo.

Enquanto Dilma lutava contra o PSDB, PMDB, DEM e muitos outros, Clara lutava contra a construtora que queria a todo custo lhe retirar o apartamento. E assim como a construtora usava métodos baixos e absurdos para tomar o apartamento de Clara, os oponentes de Dilma usaram de argumentos baixos para tirá-la do poder. Políticos que assim como Diego, o engenheiro da cosntrutora, pareciam bondosos, educados e compreensivos, dispostos ao diálogo, mas depois de algum tempo se mostram ser o pior de todos eles.

Mas assim como Dilma, Clara não desistiu, lutou até o fim, com o apoio de poucos, mas lutou. Clara está para Dilma assim como o apartamento no edifício Aquarius está para presidência da república. Em forma metafórica Kleber conseguiu mostrar um pouco do circo que virou a política Brasileira. Uma política que é capaz de usar de métodos baixos, sujos e ilegais, tal qual a orgia que ocorre no apartamento de cima ao de Clara, ou a contaminação feita no edifício, para conseguir seus objetivos.



"Aquarius": O retrato do País

“Aquarius” é sem dúvida nenhuma o filme mais importante para o cinema nacional desde “Cidade de Deus”. Um filme que é simples porém complexo e profundo, que mostra o retrato da situação que vivemos. Onde não podemos nem sequer fazer um protesto, não podemos falar nada contrário a maioria ou fazer algo diferentes, que já somos apedrejados.

Veja o caso do protesto em Cannes. Após esse protesto “Aquarius” sofreu boicote. O órgão responsável pela classificação etária no Brasil, classificou o filme como 18 anos. E apena após protestos, ela foi reduzida para 16 anos. Essa classificação 18 anos não se fazia justa, as cenas de nudez do filme, são tão curtas que não fazem diferença nenhuma de tantos outros filmes com cenas bem mais pesadas e fortes com classificação 16 anos. O filme ainda sofreu boicote de pessoas favoráveis ao Impeachment, chegando ao ponto de “sites de notícia” noticiar falsamente o fracasso nas bilheterias de “Aquarius”.  Enquanto o filme fez mais de 340 mil telespectadores, para um filme nacional que não é uma comédia global, é um feito e tanto.

E claro, como esquecer a escolha do MINC de “Pequeno Segredo” para concorrer a uma vaga ao Oscar ao invés de “Aquarius”? Uma escolha um tanto quanto equivocada, quando se vê a carreira de “Aquarius” no exterior, que acaba de ser indicado ao Independent Spirit Award de Melhor Filme Estrangeiro. Claramente a escolha foi política e uma retaliação ao protesto em Cannes.
Esses casos mostram claramente o quanto “Aquarius” é atual e real, uma metáfora para a situação atual em que vivemos. Por exemplo, no filme, Clara pinta a fachada do prédio, e é notificada sobre isso, porque pintou a fachada sem a autorização dos condôminos. Na vida real, a equipe faz um protesto totalmente válido e lícito, e sofre retaliação do governo. E a liberdade de expressão e escolha onde fica?



Conclusão

“Aquarius” com polêmicas e êxitos, é sem dúvida nenhuma o filme mais importante do cinema nacional dos últimos anos. Além de discutir temas atuais da nossa política, discute temas universais que afetam o mundo todo. Kleber conseguiu com maestria nos entregar um filme que é universal sem deixar de ser uma visão do Brasil atual, um filme simples mas complexo, e extremamente político sem levantar uma bandeira partidária. Sônia nos entregou sua melhor performance de sua longa carreira, e colocando Clara no Hall de grandes personagens do cinema mundial.

Se a retomada do cinema nasceu com “Carlota Joaquina: A Princesa do Brasil” de 1995, em 2016 vinte um anos depois o cinema nacional chega a maioridade com “Aquarius”.



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Trapaça



Desde que dirigiu O Vencedor David O. Russel se tornou o queridinho da Academia. Seus últimos quatro filmes, conseguiram vinte e sete indicações ao Oscar, entre essas três de Melhor Filme, três de Melhor Diretor e doze para seu elenco, tendo ganhado três Oscars (Ator e Atriz Coadjuvante para Christian Bale e Melissa Leo em O Vencedor e Atriz para Jennifer Lawrence em O Lado Bom da Vida). Mas será que o diretor merece toda essa comoção? A julgar por Trapaça não. Essa é sua obra mais medíocre. Ainda estou tentando entender porque o filme recebeu tantos prêmios na época.

Trapaça, que teve sua história inspirada em um caso real, conta a história de Irving Rosenfeld (Christian Bale) um grande trapaceiro, que trabalha junto com sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams). Os dois são forçados a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper), infiltrando no perigoso e sedutor mundo da máfia para ajudar a prender alguns criminosos. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do prefeito de Nova Jersey, Carmine Polito (Jeremy Renner) que é um político corrupto, embora seja um bom pai de família e bom para comunidade, e através dele eles passam a chegar a grandes nomes da política americana também envolvidos em escândalos de corrupção.

Embora tenha uma história aparentemente interessante, David O. Russell não conseguiu dar o charme necessário para história, tornandoa-a realmente interessante. Algo já aconteceu com vários outros filmes de Hollywood, como por exemplo nos filmes do mestre Scorsese, em especial em Os Bons Companheiros, que a todo momento David O. Russell tentou emular. Não nego que David O. Russell seja um excelente diretor de atores. O elenco está afiadíssimo em especial Amy Adams,que já vinha se firmando como uma grande atriz, algo que ninguém hoje mais duvida. Amy construiu uma personagem sensual sem ser vulgar, frágil sem ser fraca, e de uma importância absurda a trama. Outro destaque é Jennifer Lawrence que novamente deu um show de interpretação como Rosalyn a mulher desequilibrada de Irving (Christian Bale, que diga-se de passagem está muito bem), tudo bem que Rosalyn parece a versão mais velha e mais desequilibrada de Tifanny de O Lado Bom da Vida, mas nada que tenha estragado a performance da atriz. Mas o grande nome do filme é Jeremy Renner que construiu um personagem corrupto, mas que você entende suas ações, e até ficando do lado dele, torcendo por ele durante todo filme. Sério mesmo, ao fim do filme, cheguei a ter pena daquele político corrupto. Algo difícil de acontecer para quem mora no Brasil. Mas Jeremy Renner estava tão bem, que me convenceu. Parecia um politico de verdade.



Mas embora o elenco esteja afiado e entrosado o filme em momento algum decola. Em momento algum me senti envolvido na trama e imerso naquele mundo da máfia, como ocorre fácil em Os Bons Companheiros. Algo que contribuiu para isso foi a narração em off usada em exautão, como em Os Bons Companheiros, mas lá funciona, já aqui... David O. Russell parece que quis fazer um filme didático, explicando cada detalhe do que aparece na tela, do que está acontecendo, e cada detalhe da vida dos personagens, para tornar a história mais real aos nossos olhos, o que realmente não era necessário. Nada contra narrações em off, em alguns momentos elas são realmente necessárias, mas ele usou em momentos chaves da história que simplesmente te tiram do filme e estragam a experiência. Ele simplesmente subestima a inteligência do telespectador.

Outra coisa que te tira do filme várais vezes, a ponto de incomodar, foi o uso excesivo de música. Embora as músicas escolhidas sejam espetaculares, ela aparece em momentos aleatórios que em nada ajudam no desenvolvimento da história e te tiram completamente da projeção. Talvez o único acerto é o momento em que Jennifer Lawrence canta "Live and Let Die", que talvez seja a única sequência do filme que eu tenha realmente gostado. Naquele momento os sentimentos de Rosalyn são os passados pela música, ela canta e dança de forma desordenada e louca, como se estivesse falando com você e conseguimos entender o que ela está sentindo naquele momento. Fora isso, as músicas são simplesmente lançadas de maneira desordenada e sem sentido, prejudicando o momentos chaves da produção.



Mas muito se falou da maquiagem, direção de arte e figurino do filme. Realmente a maquiagem é fantástica em especial de Christian Bale, que mesmo tendo engordado para o filme, ainda usou protese capilar e maquiagem pesada, que em nada lembra o Batman. A direção de arte é realmente muito boa, a reconstituição de época é perfeita, você realmente acredita que o filme se passa nos anos 70. Quanto ao figurino, é muito bom. Mas tenho um problema sério com ele, o decote excessivo de Amy Adams, em vários momentos não consegui prestar atenção ao filme, só conseguia olhar para o decote dela, e isso me fez novamente sair do filme. Mas no mais o figurino é com certeza um dos melhores que vi em filmes que destacam uma determinada época no século 20.

Realmente Trapaça tem seus méritos, elenco, direção de arte, figurino, maquiagem, mas isso não faz dele um grande filme. Como comecei esse texto o filme é realmente medíocre por conta de vários pontos que já falei, e em especial por um roteiro confuso, cheio de idas e vindas dos personagens, com um conceito totalmente corrupto, isso fica claro em uma das falas do personagem do Christian Bale, ele diz que os 'políticos pegaram sim dinheiro com os mafiosos, dinheiro sujo, mas foi para fazer o bem pra população, e isso é descupável', então você pode cometer um crime desde que seja pra ajudar outros? Além do que o filme começa dizendo que o filme foi inspirado numa história real, mas ao fim da projeção fala que tudo aquilo é uma ficção, o que faz com que o telespectador se sinta enganado. Se esse foi o objetivo do diretor, me desculpe não funcionou. Na verdade ele simplesmente chama cada um daqueles que estão ali sentados assistindo ao seu filme de burros, ele subestima a inteligência do telespectador, achando que não conseguimos distinguir o que é real do que é ficção. Trapaça é uma verdadeira Trapaça, que muitos americanos caíram,mas não a Academia. O Filme foi indicado a 10 categorias Oscars, e não levou nenhuma. Entrando assim para o recorde negativo de um dos maiores perdedores do Oscar com 10 derrotas, juntando-se a Gangues de Nova York e Bravura Indômita ambos com 10 derrotas, mas ficando atrás de Momento de Decisão e A Cor Púrpura que são os maiores perdedores ambos com 11 indicações e nenhum prêmio.

Mas parece que a Academia e Hollywood se desencantou com David O. Russell seu último filme Joy, conseguiu apenas uma indicação ao Oscar e apenas um Globo de Ouro para Jenifer Lawrence. É David O. Russell é bom se reinventar senão será apenas mais um em Hollywood.